"1 minuto e 20 segundos" - Foi este o tempo do Eclipse Solar a 12 de agosto de 2026, no Observatório de Aves em Villafáfila perto de Benavente, em Espanha. Um minuto e vinte segundos para tentar capturar um momento único que voa num instante.
Quando, em maio, comecei a preparar-me para este momento, ainda não tinha considerado a possibilidade de ir até Espanha. Estava a pesquisar filtros solares para as objetivas com a perspetiva de um eclipse parcial em vista. O objetivo era ir até Vila Real e, no próprio dia, ao final da tarde, conduzir até Bragança ou perto para observar e fotografar o eclipse parcial de 98%.
Entretanto, fiz a encomenda dos filtros e deixei o assunto para mais tarde, quando já estaria completamente equipado para o evento. Para os filtros, a minha escolha foi o mais simples que encontrei, que chegou com um kit de montagem, ao estilo "do it yourself", uma vez que será um filtro para usar apenas uma vez.
Conforme o dia se foi aproximando, principalmente desde o final de julho, a comunidade de divulgação científica aumentou brutalmente a quantidade de publicações sobre o fenómeno que se avizinhava e foi apenas na semana anterior ao eclipse que tomei a decisão de ir até Espanha.
O fim de semana anterior ao eclipse foi de grande animação. Comecei a investigar a zona à volta de Benavente com recurso ao Google Maps e a uma página de divulgação de astronomia de Espanha, que tinha a indicação, por freguesia, do tempo de duração do eclipse total. Escolhi dois locais possíveis, um a norte de Benavente e outro, o preferencial, a sul de Benavente. Como a previsão era de céu limpo, acabei por ir diretamente para o observatório de aves em Villafáfila.
O local era impressionante, uma planície que se perdia de vista, apenas com duas estradas a cortarem a paisagem. O que provavelmente foi em tempos uma lagoa é agora uma salina e um centro de observação de aves. Para acrescentar ao cenário, quando chegámos, já um grupo numeroso estava na zona e em preparativos para o eclipse.
Chegados ao local, comecei a preparar o equipamento e as configurações para as primeiras fotografias com filtro solar.
Por volta das 19:40 locais, a Lua começou a sua passagem. De forma muito suave, a luz foi baixando, como se de um final do dia se tratasse. Nos minutos que se antecederam ao eclipse total, "marcado" para as 20:29, todo o ambiente começou a mudar abruptamente, o ritmo a que a luz diminuía era maior, a diferença de temperatura já era bastante evidente (também ajudou o facto de ser uma tarde com 37º C previstos) e começou a sentir-se com mais intensidade o vento de eclipse.
Os 80 segundos que se seguiram podem ser explicados usando a Teoria de Adaptação Cognitiva de Jean Piaget:
Os primeiros segundos foram marcados pela Assimilação, fase na qual o meu cérebro tentou encaixar o que estava a acontecer num conceito mental já existente, sem sucesso, uma vez que, no lugar onde o Sol deveria estar, estava agora um círculo negro com um halo à volta. Uma cena que parecia saída de um filme de ficção científica.
Quando a racionalidade tomou conta, já se tinham passado três ou quatro segundos e foi aí que se iniciou a Acomodação, momento em que uma nova "gaveta" surgiu no meu cérebro para guardar esta nova realidade.
No instante seguinte, removi o filtro solar, ajustei as configurações e comecei a fotografar enquanto ia olhando para o Sol, concluindo assim o processo de Adaptação com a fase de Equilíbrio.
Com o final do eclipse total, o final da tarde estava à vista. Com o ritmo a que a Lua se afastava do Sol, tudo fazia crer que seria um pôr do sol com um eclipse ainda parcial, então acabei por estender um pouco mais o tempo e esperar pelo final do dia.
Foi um projeto bastante desafiador, principalmente nas horas de viagem e na edição de Photoshop, uma vez que foi a primeira montagem de imagens com múltiplas camadas que criei.
A maior sugestão que posso deixar desta experiência não é de fotografia, nem de equipamento. Se tiverem a oportunidade de ver um eclipse total, nem que isso signifique uma viagem de três horas, não hesitem! Peguem no equipamento, no farnel e vão!